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9 de fevereiro de 2012

A Dividida

Luís Fernando Veríssimo  


Raimundo entrou firme, Luiz Carlos voou longe. A bola espirrou pela linha de fundo…


-          Pô, Mundo! – disse Luiz Carlos, do chão.


-          É pra homem – disse Raimundo. E em seguida foi pra cima do juiz, que tinha dado escanteio. – Bola prensada! Bola prensada!


No vestiário, Luiz Carlos mostrou a perna para o Raimundo.


- Olha o que você fez.


- É do jogo, meu.


- Do jogo, não. Tu é que é um animal.


A discussão continuou no carro. Luiz Carlos dava carona para o Raimundo.


Todas as terças, do condomínio para o ginásio, do ginásio para o condomínio.


Os dois se conheciam desde a adolescência. Eram sócios numa firma de engenharia. Eram cunhados. Moravam em casas pegadas, no mesmo condomínio.


Sempre jogavam no mesmo time. Naquela noite, Raimundo fora aliciado pelo outro time. Tinha fama de bom marcador. Viril, mas leal.


- Acho que vou ter que tirar uma radiografia.


- É, flor? 


- Pô, tu ainda brinca?


- Não foi nada. Eu entrei na bola.


- Entrou por cima.


- Na bola! Você é que entrou com pé de anjo.


- Olha o que o seu irmão me fez.


- O Mundo fez isso?


- Fez. Entrou por cima da bola. Não sei como eu não quebrei a perna.


- O time de vocês anda bom, hein? Um trombando no outro…


- Ele jogou no outro time. É um animal.


- O Mundo, um animal?


- Você nunca viu ele numa quadra. Se transforma.


- O Mundo é incapaz de matar uma mosca.


- Porque elas fazem o que eu não fiz. Pulam fora.


Na manhã seguinte, se encontraram, cada um saindo da sua casa. Luiz Carlos mancando, Raimundo caçoando.


- Pensei que você estivesse no hospital…


- Olha aqui, ó troglodita. Não fala comigo – Na UTI!


- Isto é o que dá jogar contra perna-de-pau.


- Ah é? Eu sou perna-de-pau? Eu sou viril, mas leal, se você quer saber.


Viril, mas leal.


- Viril, mas leal… Assassino, mas traiçoeiro, isso sim.


- Eu divido, meu irmão.


- E eu?!


- Você pipoca.


- Eu não acredito… Você entrou por cima da bola, Mundo.


Admite.


- Entrei na bola!


- Por cima!


A discussão continuou na reunião das quartas, na firma. Ficou tão violenta que a reunião teve que ser suspensa. Decisões importantes foram adiadas porque os dois não quiseram mais se falar, naquele dia ou no resto da semana. E no sábado, pela primeira vez desde que tinham se mudado para o condomínio, as duas famílias não fizeram o churrasco juntas. Cada um fez na sua churrasqueira. E proibiu a mulher e os filhos de se aproximar da mulher e dos filhos do outro.


No domingo, as mulheres decidiram que aquilo já fora longe demais.


Convenceram os dois a sentar para conversar. Como amigos. Como parentes.


Como sócios. Como adultos.


- Foi inveja – disse o Raimundo.


- O quê?!


- Deixa o Mundo falar, Luiz Carlos – pediu a mulher dele. – Depois você fala.


O Raimundo contou que tinha sido convocado para reforçar o outro time, que sempre perdia nos jogos das terças. Justamente porque não tinha um jogador como ele. Bom marcador. Viril, mas leal. E o Luiz Carlos ficara com ciúmes por não ter sido o escolhido. Porque o Luiz Carlos, para quem não soubesse, era um ciscador, dado a brilhaturas inúteis, ao contrário dele, que entrava para decidir jogos. Tanto que o seu time fora o vencedor, naquela noite. Por ciúmes, o Luiz Carlos tentara acertá-lo numa bola dividida, e ele apenas se defendera. Por ser apenas um ciscador inconseqüente, e não saber dividir bola, levara a pior.


Luiz Carlos estava com o rosto escondido entre as mãos, como que envergonhado pelo outro. Levantou a cabeça quando Raimundo acabou de apresentar o seu lado.


- Posso falar? Você já acabou de mentir?


- Fala.


- Dividir bola é uma coisa. Entrar com o pé por cima da bola é outra. Não é uma questão de estilo. É uma questão de ter ou não ter caráter.


- É uma questão de ser ou não ser veado.


- Veado não!


- Sabe de uma coisa? A firma só foi pra frente nestes anos todos porque eu estava lá pra dividir todas. Eu dividia enquanto você pipoqueava.


- “Pipoqueava”, não!


A reunião de paz terminou em guerra declarada.


Na firma, a situação ficou insustentável. Negócios foram perdidos porque os dois se recusavam a se encontrar. Acabaram desfazendo a sociedade.


Abandonaram o condomínio. Perderam dinheiro. Os dois, aliás, estão muito mal de vida. Mas nenhuma reconciliação é possível. Segundo Raimundo, no mundo há os que dividem a bola e há os que não dividem. Segundo Luiz Carlos, o mundo está dividido entre os que vão na bola e os que vão com o pé por cima. E quando as mulheres perguntaram como os dois tinham vivido e trabalhado juntos em paz durante tanto tempo, os dois responderam a mesma coisa. Era porque nunca antes tinham jogado um contra o outro.


texto extraído do jornal O Estado de São Paulo – Jun/2001

3 de agosto de 2011

Meu ideal seria escrever...


Rubem Braga

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- "mas essa história é mesmo muito engraçada!".

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".

E quando todos me perguntassem -- "mas de onde é que você tirou essa história?" -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

A crônica acima foi extraída do livro "A traição das elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1967, pág. 91.

Disponível em: <http://www.releituras.com/rubembraga_meuideal.asp>. Acesso em: 3 ago. 2011.